Opinião: Político por vocação, por Rosildo Barcellos
Em 2022, momento em que chego a Academia Brasileira de História e literatura, tenho um novo
olhar sobre os acontecimentos atuais, e percebo como símbolos e educação se misturam, tornando-
se impossível falar de Brizola sem miscigenar saudavelmente a memória de ordem pessoal com a
memória política. Vou dar um exemplo: Em 1º de março de 1950, Brizola casou-se com Neusa
Goulart, irmã do deputado estadual e futuro presidente da República João Goulart (Brizola e
Goulart eram ambos deputados estaduais). O casamento foi realizado na Fazenda de Iguariaçá, em
São Borja, tendo o ex-presidente da República Getúlio Vargas como um dos padrinhos. Outrossim,
Brizola não nasceu Leonel. Último dos cinco filhos dos pequenos agricultores José e Oniva de
Moura Brizola, seu nome de batismo era Itagiba. Veio ao mundo em 22 de janeiro de 1922 na
localidade chamada Cruzinha, interior de Carazinho, no norte gaúcho. No ano seguinte, ao final da
Revolução de 1923, seu pai, integrante do grupo político maragato, foi assassinado depois do
armistício por um vizinho do grupo rival, os chimangos.
Com a morte de José, Oniva havia perdido a posse da terra e da casa onde morava com os filhos.
Aos 14 anos de idade, quando foi ser registrado, Itagiba avisou: queria ser batizado com o nome do
líder dos maragatos, Leonel Rocha. Assim foi feito, registrado como Leonel de Moura Brizola.
Não posso negar que foi um homem por vezes polêmico em alguns dos seus atos, mas jamais, e em
tempo algum, deixou de ter uma visão ampla sobre o Brasil e, principalmente, sempre esteve à
frente do seu tempo, quando o assunto era Educação. Sua obstinação pela educação era memorável,
e ele a perseguia como peça chave para a mudança do Brasil, pois acreditava, e estava naturalmente
certo, que “a educação é o único caminho para emancipar o homem”. Então resolveu criar, com
Darcy Ribeiro, os Cieps, entendendo que “uma criança só pode aprender quando se nutre, come, e
depois sim, está na escola. Para Brizola, todas as crianças deveriam ter direito à escola, pois a
violência seria um fruto da falta de educação. Aqui cabe um comentário ( o jornalista Caco
Barcelos, ganhou o seu primeiro kichute justamente das mãos de Leonel Brizola. Era 1956 em uma
visita a Vila São José do Murialdo, na periferia de Porto Alegre, Brizola viu crianças descalças,
percorrendo as ruas de chão batido. E asseverou: No Rio Grande, eu nunca vi um cavalo sem
ferradura. Como pode nossas crianças andar descalças, prometendo um tênis para cada um, e
cumpriu.)
Depois disso,foi governador do Rio Grande do Sul, estado onde nasceu, e duas vezes eleito
governador do Rio de Janeiro, sendo o único político eleito pelo povo a governar dois estados
diferentes da Federação em toda a História do Brasil. O sistema escolar proposto se constituía em
estar as CIEPs erguidas próximas às comunidades mais carentes, as escolas de tempo integral
permitiam que as crianças entrassem no início da manhã e saíssem ao fim do período vespertino,
com banho tomado, três refeições diárias e direito a atendimento médico e odontológico, acesso a
piscinas, áreas de esporte, lazer, música, dança, teatro e artesanato. Alunos desabrigados podiam
morar na escola, acompanhados por um casal tutor. A estrutura era aberta para festas e reuniões da
comunidade. E isso não se resumia a um colégio: em quatro anos, Brizola criou 508 CIEPs. Em seu
segundo mandato (entre 1991 e 1994) como governador do Rio, fundou ainda a Universidade
Estadual do Norte Fluminense. Assim, ao comemorarmos, em 22 de janeiro de 2022, o centenário
de nascimento de Leonel de Moura Brizola, exaltamos a prova de que a política pode ser o lugar da
ação coerente em favor dos que mais precisam, o lugar onde o interesse público se sobreponha.
Depois de 60 anos de vida pública, Leonel de Moura Brizola é a personificação do título que
recebeu em 2015: Herói da Pátria Brasileira. E finalizo com uma de suas falas…pra pensar: “ Sou
um grande admirador de toda inteligência que, longe de mesquinho interesse e livre de dogmas
partidários, lança-se gratuitamente na arena da sabedoria humana a serviço dos necessitados. “
*Articulista
**Maragato. O termo tinha uma conotação de ironia, atribuída pelo imperialistas e legalistas aos
revoltosos liderados por Silveira Martins, que deixaram o exílio, no Uruguai. Como o
exílio havia ocorrido no Uruguai numa região colonizada por pessoas originárias da
Maragateria (na Espanha), os republicanos apelidaram-nos de “maragatos”, buscando
caracterizar uma identidade “estrangeira” aos federalistas. O lenço vermelho identificava o
maragato.
***Chimango. Ave de rapina muito comum na campanha riograndense, Alcunha dada aos liberais
moderados pelos conservadores, no início da monarquia brasileira. No RS, nos anos de
1920, foi à codinome dada pelos federalistas aos governistas. O lenço de cor branca
identificava os chimangos.

